sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Poeta do Coração Duro

Imagem: internet

O Poeta do Coração Duro

Era uma vez um poeta que costumava declamar seus poemas nos saraus da cidade. Ele sempre lia os poemas que escrevera no seu antigo caderno de poesias. Seus poemas haviam se tornado conhecidos. Vários deles haviam sido publicados nos jornais da cidade e faziam muito sucesso entre os leitores, mas certo dia seu antigo caderno de poesias desapareceu.
O poeta, que havia sido convidado para um sarau com os homens mais influentes da cidade no final daquele mês, no início se desesperou, mas logo se tranquilizou, pois tudo o que ele precisava era de uma nova poesia.  
Ele sentou-se em sua escrivaninha, pegou algumas folhas de papel e duas canetas, logo estaria com sua nova poesia em mãos, ele pensou alegre. 
Pobre poeta... Dias haviam se passado e nada lhe vinha a mente! Ele então, comecou a se desesperar... Afinal de contas, onde ja se viu um poeta que não escreve poesia? O poeta fez de tudo, assistiu todos os filmes de romance da locadora que ficava na esquina da sua casa, pesquisou no google sobre as músicas mais inspiradoras de todos os tempos, escutou cada uma delas no youtube, mas nada produziu além de rabiscos e folhas amassadas que deveriam ser poesias, mas acabaram se tornando entulho.
O que o poeta não sabia era que depois de tantas desilusoes amorosas, seu coracão havia embrutecido. O fascínio e encantamento pela vida haviam sido perdidos. Antes que ele percebesse a poesia foi morar em outro lugar e não avisou que estava indo embora.
Desesperado, resolveu pagar um outro poeta para lhe escrever um poema. No caminho de sua casa para o carro, encontrou uma crianca que estava perdida de sua mãe. Ele até tentou ignorar o choro da criança, mas o menino chorava tanto e tão alto que ele não conseguiu. Comprou sorvete e bala pro menino enquanto ligava pra mãe dele do seu celular. A mãe lhe agradeceu e disse: "Agradeça ao moço, filho" e o menino imediatamente pulou no pescoço dele e o abraçou com força. O poeta não sabia explicar o porquê, mas sentiu vontades de chorar ao receber aquele abraço. 
Assim que voltou a realidade, ele entrou em seu carro, estava mesmo decidido a comprar um poema. As pessoas trabalhavam todos os dias para comprar as mais diversas coisas, porque ele não podia comprar um poema? Pensou, tentando aliviar sua consciência pesada. Passando por uma estrada deserta ele viu um senhor de idade avançada tentando consertar seu carro, ele passou rápido, mas pode ver que ele não estava conseguindo. Ele olhou pelo retrovisor e, num impulso, resolveu voltar. Tentou ajudar o senhor, mas o caso era mais sério do que pensavam, só um mecânico resolveria. O senhor ligou para sua filha e ela lhe disse que logo chegaria ali com um mecânico. Ele não queria se atrasar mais ainda, mas decidiu ficar até a filha dele chegar. 
A filha dele chegou, lhe agradeceu inúmeras vezes. Os olhos dela brilhavam e havia tanta vida em seu sorriso que ele precisaria de milhares de adjetivos para descrevê-lo. Ela lhe perguntou o que ele fazia e ele lhe disse que era poeta. Ela sorriu, disse que apreciava muito a poesia. "É raro um homem que gosta de poesia." Ela lhe disse enquanto lhe dava o número de seu telefone. "Que tal um café amanhã a noite?" Ela perguntou e o poeta aceitou prontamente. 
A moça e o poeta desde então se encontraram todos os dias. O coracão do poeta, antes tão ferido, recebeu amor até transbordar. A cada dia que se passava o coracão do poeta ficava mais forte, pois ele havia feito as pazes com o amor. 
O mês passou depressa e o grande dia chegou. Todos esperavam sua poesia inédita.O poeta levantou-se e disse: O nome dessa poesia chama-se "Realidade Sublime". Ele limpou a garganta e disse: 
"Eu te amo
Tu me amas
Nós nos amamos..." 
Ele declamou emocionado e se calou, esperando a reacao do público, mas todos estavam chocados. Assim que o poeta saiu foi severamente criticado. 
Na manhã seguinte o poeta leu as criticas no jornal e deu de ombros. Já nao se importava com a opinião dos outros. Logo, logo veria sua amada. E mais uma vez viveria a realidade sublime de amar e ser amado.

Dea Accioly


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